A holandesa Heineken protagonizou, no início de 2010, um movimento com o
potencial de fermentar o negócio de cervejas ao adquirir, por US$ 7,6 bilhões, a
Femsa, dona das marcas Kaiser, Bavaria, Xingu e Sol. O negócio mudou o patamar
da companhia no Brasil. De uma empresa com negócios tímidos no País, ela passou
a ser considerada a principal rival local da Ambev, apoiada em sua presença em
130 países e faturamento global de € 17 bilhões. Para os brasileiros que
acompanham apenas socialmente os movimentos do mercado de cerveja, esse
potencial parece não ter se cumprido até o momento. Só agora, quase três anos
depois, os resultados começam a aparecer – devagar, é verdade.
Em um
ano, sua participação de mercado passou de 7,8% para 8,8%. Parece pouco, mas
cada ponto percentual equivale a R$ 420 milhões a mais aos cofres da companhia,
que faturou aproximadamente R$ 3 bilhões no ano passado. “Não estamos tão
obcecados com participação de mercado”, afirma o português Nuno Teles,
vice-presidente de marketing da Heineken no Brasil, um dos cinco diretores
estrangeiros recrutados pelo CEO Chris Barrow para fazer a virada da cervejaria.
Isso não significa, no entanto, que a Heineken, a quarta colocada no mercado
brasileiro, esteja desprezando cada 0,1% de participação. Ele conta bastante
para melhorar os números globais. No primeiro semestre deste ano, a receita do
grupo cresceu 4,5% no mundo.
Nas Américas, a expansão foi de 8,4%,
graças ao desempenho do Brasil e do México. E a companhia parece ter entendido
que é a hora de pedalar mais rápido para aproveitar o bom momento. Em agosto
deste ano, dobrou a produção das cervejas Heineken no País. A fábrica de
Araraquara, no interior de São Paulo, herdada da Kaiser, foi também adaptada
para produzir as características garrafinhas verdes. O objetivo de Barrow e sua
equipe é aproveitar a expansão da categoria de cervejas premium no País, que
representam atualmente 5% do consumo. Em dois anos, a Heineken triplicou sua
participação no estrato das cervejas mais sofisticadas e detém, agora, 16% dessa
categoria. A holandesa reforçou esse nicho ao trazer, em setembro, a Desperados.
Sucesso na Europa, a bebida consiste em uma mistura com tequila e
limão, que deixa o gosto mais adocicado. O foco está nas casas noturnas, que
podem praticar o preço sugerido de R$ 12. “A população brasileira está
envelhecendo e vai querer beber mais por prazer do que para se embebedar”, diz
Alexandre Horta, sócio da consultoria de varejo GS&MD – Gouvêa de Souza.
Quando se trata de consumo de massa, no entanto, a empresa ainda depende das
marcas compradas da Femsa, em especial da Kaiser. A marca, que chegou a
representar 18% do mercado nacional, chegou às mãos dos holandeses com apenas 4%
de participação. Depois de ser relançada em dezembro de 2011, ela está agora com
4,9%.
“Mudamos a embalagem, passamos a fabricá-la com as mesmas
técnicas e controles de qualidade da Heineken”, afirma Teles. “Quando assumimos,
ela era a cerveja líder em rejeição, com 10% de percepção negativa, e
conseguimos reduzir isso à metade.” Mas a briga pelo mercado brasileiro não se
resume apenas a sol, praia e cerveja gelada. Para se tornar uma ameaça real para
a Ambev, a Heineken buscou sem sucesso novas aquisições. Ela entrou na disputa
pela compra da Schincariol, que acabou nas mãos dos japoneses da Kirin. Depois,
seu alvo foi a Petrópolis, do Rio de Janeiro. “Há muita especulação, mas não
estamos abertos a venda ou fusão”, diz Douglas Costa, diretor de marketing do
grupo Petrópolis.
O interesse pela empresa iria além do ganho de
participação de mercado. O segredo do sucesso no setor pode ser resumido em uma
palavra: distribuição, que poderia ser reforçada com uma eventual aquisição da
Petrópolis. Algo que é uma questão não solucionada na Heineken. A empresa herdou
da Femsa o direito de utilizar o sistema logístico da Coca-Cola. Apesar de ser
considerado o melhor do setor, ele também traz problemas. “A distribuição da
Coca é o abraço do urso”, diz Horta, da GS&MD. “Ajudou a Heineken a entrar
no mercado, mas evita que ela adquira o conhecimento do negócio. E quem vai ter
sempre a prioridade nas vendas será a Coca-Cola.”
Fonte: Revista
Isto É Dinheiro
Heineken começa a ganhar mercado no Brasil